Breve historia da linha férrea da Petite Ceinture de Paris

, por Bruno Bretelle

Redação : Bruno Bretelle.
Tradução em Português : João Cunha, Stéphane Dos Santos e Bruno Bretelle.

 Nascimento durante o Secundo Império (1852-1869)

Na primeira metade do século XIX, a rede ferroviária francesa é construída em estrela à volta de Paris, capital do país, com o objetivo de a ligar diretamente às maiores cidades francesas. Em 1850, no entanto, ainda continuava a faltar uma linha circular no perímetro da cidade, para ligar todas estas radiais e permitir o desenvolvimento do transporte ferroviário de mercadorias. O governo de Napoleão III, alguns dias após a criação do Segundo Império, decide corrigir esta lacuna com a construção da Petite Ceinture Rive Droite (Pequena Cintura Margem Direita). Esta linha fica nas zonas Norte e Este de Paris, ao longo do perímetro da cidade.

A Petite Ceinture no ano 1921
A Petite Ceinture é figurada pela linha em negrito (clique para ampliar).

Esta linha atravessa terrenos pertencentes a Paris desde 1860. Num ápice, estações de mercadorias e ramais de mercadorias são construídos ao longo da linha, para melhorar o aprovisionamento de Paris. A linha é explorada por um sindicato de companhias privadas de caminho-de-ferro que possuam pelo menos uma estação terminal em Paris.

Um trem de mercadorias atravessando a estação de Ménilmontant para 1910

 1854-1862 : criação do serviço urbano de passageiros

Aproveitando o desinteresse que se seguiu à entrada em serviço da linha da Margem Direita, para a construção de uma linha na zona Oeste de Paris destinada ao transporte de mercadorias, a companhia do Oeste coloca em serviço em 1854 uma linha ligando a estação de Saint Lazare e a Porte d’Auteuil, dedicada ao transporte de passageiros – a linha d’Auteuil. Esta linha serve o Bosque de Boulogne e os bairros residenciais em instalação. Com a anexação em 1860 dos terrenos que a linha atravessa, a linha d’Auteuil é a primeira linha ferroviária urbana de Paris. Ela é seguida em 1862, dia 14 de julho, feriado nacional, pela Petite Ceinture Rive Droite, onde comboios de passageiros são colocados em serviço após pressão dos responsáveis políticos.

 1867-1903 : desenvolvimento do transporte de passageiros graça as Exposições Universais

A estação da Exposição Universal de 1900
Ela ficou perto do Champs de Mars e da Torre Eiffel.

De 1867 a 1900, os serviços de passageiros da Petite Ceinture e da linha d’Auteuil desenvolvem-se à medida das Exposições Universais organizadas em Paris a cada 11 anos : 1867, 1878, 1889 e 1900. Para cada exposição, novas estações são construídas e o número de comboios é aumentado. Assim progressivamente os comboios da Petite Ceinture e da linha d’Auteuil se tornam verdadeiros transportes públicos.

Para a Exposição Universal de 1867, a Petite Ceinture Rive Droite é ligada à linha d’Auteuil por uma nova linha que passa pelos bairros do Sul de Paris : a Petite Ceinture Rive Gauche (Margem Esquerda). Graças a esta nova linha, os primeiros comboios circulares são postos em serviço entre a estação de Saint Lazare e a estação da Avenida de Clichy. Estes comboios efetuam a volta de Paris percorrendo a linha d’Auteuil, a Petite Ceinture Rive Gauche e a Petite Ceinture Rive Droite. Na linha d’Auteuil, os combios circulares coexistem com os comboios desta linha. Um ramal construído ao longo do rio Sena e partindo da Petite Ceinture permite a estes comboios servir a Exposição Universal localizada no Champ de Mars. Em 1869, alguns meses antes da queda do Segundo Império, um novo troço fecha o círculo entre as estações Avenue de Clichy e Courcelles-levallois. Agora, os comboios circulares percorrem a volta completa de Paris.

Para a Exposição Universal de 1878 são construídas novas estações e o número de comboios é aumentado mais uma vez, tornando-se definitivo o ramal ao serviço da estação do Champs de Mars.

Para a Exposição Universal de 1889, que é marcada pela inauguração da Torre Eiffel, são suprimidas as últimas passagens de nível na Petite Ceinture Rive Droite, ao mesmo tempo que é mantida a circulação ferroviária. Por esta altura, várias estações são reconstruídas e o tráfego aumenta novamente.

Por fim, na Exposição Universal de 1900 dá-se o apogeu do tráfego de passageiros da Petite Ceinture : 39 milhões de passageiros transportados – mais de 100.000 por dia, em média. Até 12 comboios por hora e sentido são colocados em circulação, com tempos de passagem entre os 5 e os 10 minutos. Em tempo normal, até 8 comboios por hora e sentido circulam, maximo autorisado devido ao trafico propio da linha d’Auteuil.

A volta completa de Paris realize-se com 29 estaçãoes : 6 na linha d’Auteuil e 23 na Petite Ceinture. Os tempos de percurso são de 1h30 e de 1h21. Em 1903, o tempo de viagem é reduzido nas horas mortas para 1h10, o seja uma velocidade de 27 km/h, equivalente a velocidade de uma linha do metro contemporânea.

 1867-1895 : debate sobre o projeto de caminho-de-ferro metropolitano

A estação aérea do Point du Jour no 16º Bairro, aberta à exploração em 1867

Após a abertura à exploração da Petite Ceinture Rive Gauche em 1867 e da primeira estação elevada de Paris – a estação Point du Jour – o serviço circular da Petite Ceinture é considerado como a primeira etapa para a construção de uma rede de linhas de caminho-de-ferro metropolitano.

As companhias privadas que se associaram para explorar a Petite Ceinture acabam por desenvolver o tráfego de passageiros na esperança de lhes ser atribuída a concessão do futuro Metro. No entanto, a cidade de Paris exerce forte oposição aos projetos, com a motivação fundamental de guardar para si o controlo do futuro Metro, cujas instalações vão ocupar terrenos municipais. Finalmente, em 1895, depois de três décadas de debates inconclusivos e com a aproximação da Exposição Universal de 1900, o governo francês cede às pretensões da câmara de Paris, autorizando o estabelecimento do Metro e concedendo às autoridades municipais a escolha do modo de exploração. A primeira linha de Metro entra em serviço em 1900. No início do século XX, os habitantes de Paris e dos seus subúrbios possuem assim dois serviços metropolitanos distintos : a Petite Ceinture e o Metro.

 1903 -1934 : O declínio do serviço circular de passageiros

Nesta altura, os diferentes modos de transporte são explorados por companhias diferentes e não há qualquer sinal de coordenação tarifária como nos dias de hoje. Deste modo, tornam-se em concorrentes muito mais do que em companhias complementares. A partir do início do século XX, o serviço metropolitano da Petite Ceinture conhece a concorrência do metro e de novas linhas de carros elétricos, uma concorrência crescente à medida do desenvolvimento destes transportes. Apesarrda reorganização dos serviços e do aumento da velocidade comercial, a Petite Ceinture vê o seu tráfego de passageiros afundar no espaço de uma década. A modernidade do Metro, cujos serviços são assegurados por automotoras elétricas, contrastam com as condições de circulação herdadas do século XIX da Petite Ceinture.

A concorrência não é, no entanto, a única razão do declínio da Petite Ceinture. Esta última sofre também as consequências da ambiguidade da sua missão: assegurar simultaneamente transporte de passageiros e de mercadorias. A presença de importantes tráfegos de mercadorias impede de intensificar o serviço de passageiros utilizando a tração elétrica, estudada após a Exposição Universal de 1900. O tráfego de mercadorias, aliás, enfrenta um crescimento ininterrupto ao contrário do declínio dos serviços de passageiros.

Finalmente, em 1934 e após cerca de 70 anos de existência, o serviço de passageiros é transferido para um serviço de autocarros, da linha P.C. (iniciais da Petite Ceinture). Já o serviço de mercadorias continua a prosperar até à década de 70, onde começará o seu longo declínio, até acabar em 1993. Do lado Oeste, a linha d’Auteuil é eletrificada nos anos 20 para um tráfego de passageiros que permanece até 1985, data da integração da mesma na linha C do RER.

 Depois de 1934 : Continuação da actividade ferroviária

A suspensão do serviço de passageiros em 1934 não marca o final das circulações na linha.

Trens de mercadorias

Um trem de mercadorias na estação Les Gobelins, no 13º Bairro, em 1985

Comboios dos chefes de estados

Entre 1900 até os anos 50, a estação da “avenue du Bois de Boulogne” recebe chefes de Estado estrangeiro em visita em Paris. A visita mais impressionante é do casal real britânico em julho de 1938. Esta estação é sobrenomeada “estação dos soberanos”.

Serviços ferroviários internacionais

Até o fim da década 80, a Petite Ceinture é atravessada por míticos comboios europeus como o “Train Bleu” (Londres - Calais - Paris - Nice). A Petite Ceinture inspira um dos romances de Agatha Christie onde um crime é realizado durante um viajem sobre a Petite Ceinture.

Comboios de descoberta

De 1965 até novembro de 2003, a Petite Ceinture conhece uma actividade de comboios turísticos organizados com o apoio da SNCF. A nossa associação organizou vários deles entre 1999 e 2003.

Varios trens

Em 1996, um troço no 13º Bairro, situado ao pé da Porta d’Italie acolhe uma composição automática do metro, para a linha 14, para ensaios e afinações dos automatismos de condução.

Enfim, um comboio com varias caruagens Corail circule no dia 18 de janeiro de 2012 na Petite Ceinture Rive Gauche.